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Sobre a Reforma Protestante
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Por Admin   
17 de September de 2008
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(Martinho Lutero, aos 46 anos)
 
A Reforma Protestante foi um movimento que começou no século XVI com uma série de tentativas de reformar a Igreja Católica Romana e levou subseqüentemente ao estabelecimento do Protestantismo.

Introdução


Esse movimento resultou na divisão da Igreja do Ocidente entre os "católicos romanos" de um lado e os "reformados" ou "protestantes" de outro; entre estes, surgiram vários grupos, dos quais se destacam o Luteranismo (de Martinho Lutero) e as Igrejas Reformadas ou calvinistas (de João Calvino). Um dos pontos de destaque da reforma é o fato de que a partir de então qualquer pessoa pôde ter acesso à Bíblia graças às traduções feitas por vários reformadores (entre eles o próprio Lutero), após séculos em que as escrituras estavam sob o domínio privilegiado dos membros da hierarquia eclesiástica.

As principais figuras da reforma foram Martinho Lutero (1483-1546) e João Calvino (1509-1564), herdeiros das idéiras dos pré-reformadores John Wyclif (1320-1384) e Jan Huss (1370-1415). A resposta da Igreja Católica Romana foi o movimento conhecido como Contra-Reforma.

O biógrafo de João Calvino, o francês Bernard Cottret, escreveu: "Com o Concílio de Trento (1545-1563)... trata-se da racionalização e reforma da vida do clero. A Reforma Protestante é para ser entendida num sentido mais extenso: ela denomina a exortação ao regresso aos valores cristãos de cada indivíduo". A Reforma redescobriu o papel de o próprio indivíduo poder se achegar a Deus, e obter o perdão e a sua salvação. Proclama-se, com a Reforma, que o homem seria salvo pela fé e não por obras da carne.

Um elemento comum às igrejas que surgem da Reforma Protestante é esta centralização na salvação do indivíduo. Bernard Cottret: "A reforma cristã, em toda a sua diversidade, aparece centrada na teologia da salvação. A salvação, no Cristianismo, é forçosamente algo de individual, diz mais respeito ao indivíduo do que à comunidade". Este aforismo de Lutero do ano 1531 caracteriza bem a importância da história pessoal de cada um para a causa reformadora. Lutero não é nenhum fundador de um império, ele é um monge em busca da sua salvação. Como Pierre Chaunu mostrou de forma extraordinária, "não se trata de uma questão da Igreja mas de uma questão da salvação".
 
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(Henrique VIII)
 
O resultado deste movimento religioso é uma mais fervorosa observação dos princípios morais cristãos tais como eles estão expressos na Bíblia. Os movimentos de zelo religioso que têm lugar na Europa do século XVI são para ser entendidos no contexto do efeito multiplicador iniciado pela invenção da imprensa por Gutenberg. Se a bíblia não estivesse agora acessível a cada um, traduzida nas línguas e dialetos locais, compreensível aos Europeus, tal como ela começou a surgir no século XVI, tal zelo religioso não teria sido possível. Anteriormente ao século XVI, a bíblia era um manuscrito em Latim, (língua dominada por uma minoria) do qual havia poucas cópias, que se encontravam fechadas nos conventos e nas igrejas, lidas por uma elite eclesiástica. A grande maioria da população nunca a tinha lido. No século XVI, ela está disponível em grandes números e nas línguas e dialetos locais. Não é de admirar pois que a religião se torne um tema polêmico.


Raízes da Reforma Religiosa


    * Papado de Avignon ("Cativeiro Babilónico da igreja"), O Grande Cisma
    * Wessel Gansfort teólogo e humanista holandês, mais tarde elogiado por Martinho Lutero.
    * Jan Hus, John Wyclif, William Tyndale
    * Renascimento do Norte, Erasmo de Roterdã

   
   
    Início da Reforma

    * Martinho Lutero, João Tetzel, Indulgências, 95 Teses, Nicolaus Von Amsdorf
    * Exsurge Domine, Dieta de Worms (1521), Guerra dos Camponeses, Confissão de Augsburgo
    * Ulrico Zuínglio e Zurique
    * João Calvino e Genebra
    * John Knox e Escócia
    * Reformadores radicais -- Müntzer, Anabaptistas, Menno Simon
    * Huguenotes

   
   
   
Fator tecnológico fundamental: A recente invenção da imprensa


Por volta de 1450-1455 tinha sido impresso pela primeira vez um livro: uma bíblia. A Bíblia Latina, impressa por João Gutenberg, com uma edição de cerca de 150 exemplares, uma revolução tecnológica, certamente, mas que dá início a uma revolução social. Até aqui, na Idade Média, os livros eram copiados à mão. A bíblia era um luxo, exclusivo aos elementos da Igreja. A maioria da população, analfabeta, conhece a Bíblia apenas de forma lacunar, das visitas à Igreja.

Nos anos seguintes à invenção da imprensa irão surgir milhares de bíblias em circulação, impressas primeiro em latim, mas também em Grego, e depois em Inglês, Alemão, Francês, e demais línguas e dialetos. Coloca-se agora com maior acutilância a questão de descobrir as versões mais "corretas" da Bíblia, a exegese torna-se uma prática comum. Estamos na era de humanistas como Erasmo de Roterdão. Torna-se também evidente que há uma problemática intrínseca à tradução de textos. Como traduzir a palavra grega "presbyterus" ? "Padre", como pretendem os católicos ? Ou "o mais velho" como pretendem alguns protestantes ? Se no passado estas questões não se colocaram com grande urgência, agora que as bíblias apareciam nas estantes das famílias educadas e eram lidas em massa, o tema torna-se mais importante.

Fatores Demográficos e Econômicos Subjacentes

A revolta histórica produz normalmente uma nova forma de pensamento quanto à forma de organização da sociedade. Assim foi com a Reforma Protestante. No seguimento do colapso de instituições monásticas e do escolasticismo nos finais da Idade Média na Europa, acentuado pela "Cativeiro Babilônica da igreja" no papado de Avignon, o Grande Cisma e o fracasso da conciliação, assistimos no século XVI ao fermentar de um enorme debate sobre a reforma da religião e dos posteriores valores religiosos fundamentais. Este debate passou completamente ao lado de Portugal, demasiado distante do foco onde surgiram estes pensamentos. A imprensa, inventada na Alemanha por John Gutenberg, foi importante na divulgação destas idéias. As 95 Teses de Martinho Lutero foram imediatamente impressas e divulgadas por todas as regiões de língua alemã, o que contribuiu para a crescente popularidade de Martinho Lutero. Não menos relevante foi a influência da pressão social exercida pela Contra-Reforma, na qual os Jesuítas tiveram um papel de liderança. A Inquisição e a censura exercida pela Igreja Católica foram igualmente determinantes para evitar que as idéias reformadoras encontrassem divulgação em Portugal, Espanha ou Itália, países católicos. Historiadores assumem geralmente que a incapacidade de reformar (grande número de interesses legítimos, falta de coordenação na coligação dos reformadores) poderia levar a uma grande revolta ou revolução, uma vez que o sistema deverá ser gradualmente ajustado ou então se desintegrar. O fracasso da conciliação levou à Reforma Protestante do ocidente europeu. Estes movimentos reformistas frustrados variam desde o nominalismo, a moderna devoção, ao humanismo, e ocorrem em conjunção com o crescente desagrado perante a riqueza e o poder da elite clerical, sensibilizando a população para a corrupção moral e financeira da Igreja.


A Reforma Religiosa e Política na Inglaterra
   
   
O curso da Reforma foi diferente na Inglaterra. Desde muito tempo atrás havia uma forte corrente anticlerical, tendo a Inglaterra já tido o movimento Lollardo, que inspirou os Hussitas na Boémia. Mas em cerca de 1520, no entanto, os lollardos não eram já uma força activa, ou pelo menos um movimento de massas.

O carácter diferente da Reforma Inglesa deve-se ao facto de ter sido promovida inicialmente pelas necessidades políticas de Henrique VIII. Sendo este casado com Catarina de Aragão e estando apaixonado por Ana Bolena, Henrique solicita ao Papa Clemente VII a anulação do casamento. Perante a recusa do Papado, Henrique faz-se proclamar, em 1531, protector da Igreja inglesa. O "Ato de Supremacia", votado no Parlamento em Novembro de 1534, colocou Henrique e os seus sucessores na liderança da Igreja: os súbditos deveriam submeter-se ou então seriam excomungados e perseguidos. Apesar de uma certa deriva em direcção ao luteranismo, Henrique reafirma a ortodoxia católica através da "Confissão dos Seis Artigos" (1539).

Entre 1540 e 1553, sob Thomas Cromwell, a política conhecida como a dissolução dos mosteiros foi posta em prática. A veneração de santos, locais de peregrinação foram atacados. Enormes extensões de terras e propriedades da Igreja passaram para as mãos da coroa e posteriormente da nobreza e das classes altas. Os direitos adquiridos foram uma força poderosa de apoio às dissoluções.

Houve muitos opositores da Reforma de Henrique, tais como Thomas More e o Bispo John Fischer, que foram executados pela sua oposição. Mas também existiu um partido crescente de Protestantes genuínos que estavam inspirados pelas doutrinas então correntes no continente. Quando Henrique foi sucedido pelo seu filho Eduardo VI em 1547, os protestantes viram-se em ascendente no governo. Uma reforma mais radical foi imposta, com a destruição de imagens e o fecho de capelas, para além de ter sido revogada a "Confissão dos Seis Artigos". Em 1552, é redigido o novo "Livro de Orações" e promulgada a "Confissão de Fé em Quarenta e Dois Artigos", que aproximava doutrinalmente a Igreja de Inglaterra do calvinismo.

Seguiu-se uma breve reacção católica durante o reinado de Maria I (1553-1558). De início moderada na sua política religiosa, Maria procura a reconciliação com Roma, consagrada em 1554, quando o Parlamento vota o regresso à obediência papal. Porém, as perseguições violentas que move aos não católicos e o seu casamento com Filipe II de Espanha, provocam um forte descontentamento na população.

Um consenso começou a surgir durante o reinado de Isabel I. Em 1559, Isabel retorna à religião do pai, com o restabelecimento do "Ato de Supremacia" e do "Livro de Orações" de Eduardo VI. Através da "Confissão dos Trinta e Nove Artigos" (1563), Isabel alcança um compromisso entre o protestantismo e o catolicismo: embora o dogma se aproxime do calvinismo, só admitindo como sacramento o baptismo e a eucaristia, é mantida a hierarquia episcopal e o fausto das cerimônias religiosas.

O sucesso da Contra-Reforma no continente e o crescimento de um partido puritano dedicado a estender a Reforma Protestante polarizou a era Elizabetana, apesar da Inglaterra não ter tido até 1640 lutas religiosas comparáveis às dos seus vizinhos.

Na verdade a Reforma na Inglaterra procurou preservar o máximo da Tradição Católica (episcopado, liturgia e sacramentos). A Igreja da Inglaterra sempre se viu como a "eclesia anglicanae", ou seja, "A Igreja cristã na Inglaterra" e não derivação da Igreja de Roma ou do movimento reformista do século XVI.

Como conseqüência disso, sempre existiram dois grandes "partidos" ou "facções": a Igreja Alta (High Church) e Igreja Baixa (Low Church), que refletem a controvérsia histórica sobre as formas de culto e de expressão.

A Reforma Anglicana buscou ser a "via média" entre os extremos romanos e puritanos. Assim aceitam os dois sacramentos do Evangelho: o Santo Batismo, através do qual a pessoa é feita membro da Igreja de Cristo, sendo que tal graça é complementada na Confirmação, e na Santa Comunhão, que une o cristão ao sacrifício de Cristo Jesus que os alimenta com seu corpo e sangue.

Para os anglicanos estes dois sacramentos foram instituídos pelo próprio Senhor Jesus Cristo. Os demais ritos sacramentais da Igreja também são aceitos, apesar de não terem sido instituídos por Cristo, mas são reconhecidos por serem, em parte, estados de vida aprovados nas Escrituras: a Confirmação, Penitência, Ordens, Matrimônio e a Unção dos enfermos.

Embora tenham se afastado de muitas das práticas devocionais medievais com relação aos santos e a Virgem Maria mantiveram um calendário específico para sua comemoração na Igreja, em especial as antigas festas marianas diretamente associadas aos méritos de seu Filho Jesus Cristo (Anunciação, Natividade etc).

A Reforma na Escandinávia

Ainda durante a vida do seu fundador, o luteranismo chegará à Dinamarca, à Noruega e à Suécia.

Na Dinamarca, a difusão das idéias de Lutero deveu-se a Hans Tausen. Em 1536, na Dieta de Copenhaga, o rei Cristiano III aboliu a autoridade dos bispos católicos, tendo sido confiscados os bens das igrejas e dos mosteiros. O rei atribuiu a Johann Bugenhagen, discípulo de Lutero, a responsabilidade de organizar uma Igreja Luterana nacional. A Reforma na Noruega e na Islândia será uma conseqüência da dominação da Dinamarca sobre estes territórios; assim, logo em 1537 ela é introduzida na Noruega e entre 1541 e 1550 na Islândia, tendo assumido neste último território características violentas.

Na Suécia, o movimento reformista foi liderado pelos irmãos Olaus e Laurentius Petri. Foi em larga medida uma forma do rei Gustavo I Vasa cimentar o poder da monarquia face a um clero influente, ao qual confiscará os bens que distribui pela nobreza. O rei rompe com Roma em 1525, na Dieta de Vasteras. O luteranismo penetrará neste país de maneira lenta, tendo a Igreja reformada preservado aspectos do catolicismo, como a organização episcopal e a liturgia. Em 1593, a Igreja sueca adotará a Confissão de Augsburgo.
   

Comparação entre o catolicismo e protestantismo no sec. XVI

Abaixo, uma tabela resumindo as principais diferenças entre a religião católica e o protestantismo no século XVI.

Igreja Livro Sagrado Salvação humana Sacramentos Rito religioso Principais áreas de influência européia
Católica A Bíblia é a fonte de fé, mas devia ser interpretada pelos padres da Igreja. A tradição católica também é uma fonte de fé, assim como o Magistério da Igreja. Salvação pela fé e boas obras. São sete: batismo, crisma, eucaristia, matrimônio, penitência, ordem e unção dos enfermos (extrema-unção). Missa solene em latim. Espanha, Portugal, Itália, sul da Alemanha, a maioria da França, maioria da Irlanda
Luterana A Bíblia é a única fonte de fé. Permitia-se seu livre exame. Salvação pela fé em Deus. São dois: batismo e eucaristia. Culto simples (com liturgia) com o uso das línguas nacionais. Norte da Alemanha, Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia.
Calvinista A Bíblia é a única fonte de fé. Permitia-se seu livre exame. Salvação pela fé e graça de Deus (predestinação).As boas obras eram vistas como consequência da salvação. São dois: batismo e eucaristia. Culto bem simples com o uso das línguas nacionais. Suíça, Países Baixos, parte da França (huguenotes), Inglaterra (puritanos), Escócia (presbiterianos).
Anglicana A Bíblia é a fonte principal de fé. Devia ser interpretada pela Igreja (Tradição) e permitia-se seu livre exame (Razão). Salvação pela fé e graça de Deus (predestinação).As boas obras eram vistas como conseqüência da salvação. Para os anglicanos o Batismo e a Eucaristia foram os dois sacramentos instituídos pelo próprio Senhor Jesus Cristo. Os demais ritos sacramentais da Igreja também são aceitos, apesar de não terem sido instituídos por Cristo, mas são reconhecidos por serem, em parte, estados de vida aprovados nas Escrituras: a Confirmação, Penitência, Ordens, Matrimônio e a Unção dos enfermos. Culto conservando a forma católica (liturgia, hierarquia da Igreja). Uso da língua nacional (inglês). Inglaterra.
   
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(Lakewood Church - Maior Igreja Evangélica dos EUA)   
 
Última Atualização ( 17 de September de 2008 )
 
A Igreja Católica e a ditadura assassina da Argentina
(3 votes)
Por Admin   
19 de August de 2008

O jornalista Horacio Verbitsky revela a estreita cumplicidade da Igreja Católica com a ditadura militar na Argentina

Detectar disfunções e exibi-las à luz de todas as evidências, mas também desmontá-las, tirar a poeira que geralmente lhes serve de disfarce, examinar-lhes as entranhas e, finalmente, compreender como se instalaram, cresceram, aperfeiçoaram-se e atingiram toda uma sociedade é o trabalho a que o jornalista argentino Horacio Verbitsky, 63, vem se dedicando há quatro décadas e cuja recente faceta é a publicação de “El Silencio” -livro que chega à terceira edição na Argentina e detalha a cooperação e a cumplicidade que uniram o comando militar do país e a alta hierarquia da Igreja Católica nos anos de ditadura (1976-1983).

Escrito ao longo de 20 anos, “El Silencio” (ed. Sudamericana) descreve o relacionamento que a cúpula eclesiástica manteve com a temida Esma (Escuela de Mecánica de la Armada), o maior centro de repressão da ditadura argentina, a ponto mesmo de fornecer aos militares esconderijo para seus presos em uma ilha de propriedade da igreja, lugar apropriadamente chamado de “El Silencio”, no delta do Paraná, a poucos minutos de Buenos Aires. Neste local ficaram ocultos por um mês seqüestrados políticos, em 1979, para que não fossem descobertos durante a visita ao país da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Desde o início da carreira, nos anos 60, e com a publicação de livros como “Robo para la Corona”, em 1992 -um “quem é quem” de corruptos e corruptores argentinos, que vendeu 250 mil exemplares-, Verbitsky vem perscrutando o lado pouco honroso das instituições do Rio da Prata. Transformou-se assim num dos autores não só mais lidos no gênero “investigação jornalística” como num dos profissionais mais respeitados e de maior credibilidade em seu país.

No ano seguinte, publicou “Hacer la Corte”, relato detalhado de como se dava a manipulação política da justiça durante o primeiro governo Menem e cuja configuração o autor já deixava entrever no subtítulo (“A construção de um poder absoluto sem justiça nem controle). Depois, chegou às ruas “El Vuelo” (1995), livro em que pela primeira vez um oficial da Marinha argentina descrevia como eram atirados ao mar centenas de opositores da ditadura. A obra foi publicada em português e lançada no Brasil, com o título de “O Vôo”, pela editora Globo.

Há 18 anos colunista político do diário argentino “Página/12”, professor da Fundación del Nuevo Periodismo Iberoamericano -dirigida por Gabriel García Márquez-, membro da direção da Human Rights Watch/Americas e presidente do Centro del Estudios Legales y Sociales, o escritor teve sua trajetória premiada pela Latin American Studies Association, em razão de haver realizado a “melhor cobertura jornalística de longo prazo na América Latina”, e trabalha agora na tradução para o italiano de “El Silencio”, em versão que também está atualizando.

Ainda para o hemisfério Norte, Verbitsky acaba de verter “El Vuelo”, que está sendo lançado nos países de língua inglesa com o título “Confession of the Argentine Dirty War”.

E, depois de enfocar o envolvimento da Igreja Católica com a violência da ditadura em seu país, ele prepara novo livro em que o poder religioso é apresentado em sua envergadura social, moral e política ao longo de um século. “Trabalho com o tema da igreja há décadas, e não somente no que diz respeito à instituição argentina, mas com relação à estrutura eclesiástica em geral”, afirma El Perro (o cachorro), como o autor é apelidado localmente.

Seu faro está concentrado sobre um material que tem compilado em 1.500 páginas e que parte da situação da Igreja Católica no século 19. “Voltei ao que era o projeto inicial de ´El Silencio`, quando ainda não havia a solidez do enfoque que decidi eleger”, diz. A nova obra abordará a história política da igrejas entre 1884 e 1983. A primeira das décadas de 80 contempladas marca o momento em que a burguesia liberal expulsa seu então delegado/núncio católico, e os anos 80 do século 20 trazem, com o fim da ditadura argentina, a crise da igreja, “após haver assumido seu mais alto compromisso com o poder”, como afirma o escritor. O livro será composto de dois volumes, e o primeiro tem lançamento previsto para o próximo ano.

A seguir, Horacio Verbitsky conversa com Trópico sobre “El Silencio”, a Igreja, a Argentina e o Brasil.

Que fatos lhe fizeram deter-se sobre a atuação da Igreja Católica durante a ditadura argentina, investigação que terminou por se materializar em “El Silencio”?

Horacio Verbitsky: Comecei a tratar desse tema há 20 anos. Interrompi porque tinha outros assuntos sobre os quais estava trabalhando e também porque naquele momento encontrava dificuldades para prosseguir. Há dez anos passei a ter mais constância nessa investigação e há cinco comecei a trabalhar nela mais acirradamente. Foi o livro que mais tempo me tomou.

Durante a ditadura era evidente a circulação do alto clero entre o comando militar. A igreja brasileira tinha, sim, setores mais conservadores. A igreja argentina teve um setor militante muito ativo, mas que sofreu perseguição com a colaboração da alta hierarquia eclesiástica. Toda vez que eu escrevia sobre a ditadura, pensava que não era possível entender o regime militar na Argentina sem levar em conta a participação da igreja. Houve uma postura dogmática neste país que não se deu em outros lugares. Tinha isso claro para mim.

Na Argentina houve o triunfo de um catolicismo de discursos que mesclavam a cruz e a espada, o que não ocorreu em outros países. E essa linha da igreja chegou a ter controle da Conferência Episcopal (em “El Silencio”, se descrevem, entre outros, alguns dos movimentos do então arcebispo de Buenos Aires, cardeal Caggiano, nomeado em 1959, religioso que foi peça-chave para a chegada e a implantação na Argentina de doutrina contra-revolucionária importada da França e difundida pela Escola Superior de Guerra portenha). O próprio conceito de subversão aqui tinha a ver com a idéia da negação de Cristo.

Que aspectos o sr ressaltaria como os mais surpreendentes da sua pesquisa e que são revelados por “El Silencio”?

Verbitsky: O fato de um campo de concentração funcionar em uma comunidade eclesiástica. Isso foi o mais assombroso, porque a cumplicidade que havia entre a Igreja Católica e os militares era conhecida, mas não que chegasse a tal ponto. Ao ponto de que um secretário do vicariato castrense participasse do grupo de tarefas da Esma, que tivessem informações detalhadas sobre os presos políticos e que intermediassem sua liberação.

O sr. acredita que possa ter havido alguma orientação do próprio Vaticano a respeito do silêncio da igreja argentina no período militar, ou essa foi uma reação autônoma?

Verbitsky: A igreja argentina sempre teve autonomia em relação a temas temporais. Mas uma autonomia relativa. Quando foram assassinados vários sacerdotes, em 1976, o Vaticano pediu explicações à Argentina. No ano seguinte, Emilio Massera encontrou-se com o papa Paulo VI e, ao ensaiar tais explicações, foi interrompido por Paulo VI, que disse ser esse um assunto superado para a igreja. E afirmou estar fascinado com a personalidade de Massera. Não houve contradição entre o Vaticano e a igreja argentina. Há um livro de Pio Laghi, núncio apostólico nesses anos, em que ele reparte culpas equitativamente entre o Vaticano e o episcopado argentino. Esse livro saiu na Itália em 1999 (“Il Cardinale ei Desaparecidos – L´Opera del Nuncio Apostolico Pio Laghi in Argentina”).

É possível a separação Igreja/Estado de fato no país?

Verbitsky: Penso que é possível, sim, um maior distanciamento entre a Igreja e o Estado na Argentina. Há um processo de secularização que temos de completar. Esse fato de que todo ano o presidente da República tenha que prestar contas à Igreja Católica, isso tem que terminar.

Jorge Bergoglio, atual cardeal argentino, é um dos “perfilados” de “El Silencio” e também foi um dos candidatos à sucessão de João Paulo II. Teria sido bom para a Argentina que saísse papa?

Verbitsky: Isso teria sido muito ruim para a Argentina. Não porque Bergoglio fosse um mau representante para o país, porque não acho que sacerdotes representem seus povos. Mas, se fosse eleito, Bergoglio faria muito mal à Argentina porque colocaria o peso da igreja para impedir a investigação de crimes contra os direitos humanos no país.

Ele gosta de cultivar um perfil popular. Nesse aspecto, teria sido um papa bastante fiel aos moldes de João Paulo II e teria criado um contra-poder em relação ao que se passou neste país durante o período militar. Nos últimos anos moveu-se muito contra o avanço das investigações e discussões sobre a ditadura. Disse que o meu livro tentava prejudicá-lo para a eleição papal, o que é uma bobagem. O original de “El Silencio” já estava pronto em agosto de 2004, quando João Paulo II ainda tinha saúde, e o livro foi publicado quando o papa se internava.

Tanto a Argentina como o Uruguai vêm debatendo publicamente que se mantenham e intensifiquem as investigações sobre as violações aos direitos humanos durante a ditadura. Livros como “El Silencio” ajudam a manter esse tema na ordem do dia?

Verbitsky: Espero que o livro sirva para isso, mas, se vai ajudar nesse sentido ou não, não sei. Esclarecer pontos obscuros da sociedade é papel do jornalismo, aliás, uma de suas funções mais claras. O livro já está na terceira edição, teve muita repercussão por aqui, mas a longo prazo não se sabe que efeitos terá. A igreja argentina continua com a atitude de dizer que não sabiam o que acontecia. Não podem fazer-se de distraídos.

Qual sua avaliação da turbulência por que passa o governo Lula?

Verbitsky: Estive no Brasil quando Lula assumiu a Presidência, e à distância é difícil opinar. Creio é que há coisas que ainda não fazem parte do debate público, como o enriquecimento do filho do Lula, algo que é de extrema gravidade. E toda essa rede de financiamento em torno de uma alta hierarquia é uma forma de funcionamento dos nossos países.

Parece-me um problema de sistema, um problema que surge quando não há maioria para se fazer aprovar projetos, quando não há maioria parlamentar. Além do juízo ético, é uma questão que requer um julgamento institucional. Esses governos, como o do Brasil e também o da Argentina, sem maioria, são muito difíceis de administrar, com a pobreza e os problemas que sofrem nossos países. Na Europa, não há governo sem maioria parlamentar.

O sistema que temos é esse modelo americano, que lá funciona porque existe uma outra cultura política, que nós não temos. O que temos é um jogo político de soma zero. Para além da legitimidade, é a soma de várias coisas que desembocam em crises como essas.

Há muitos anos Brasil e Argentina têm altos graus de corrupção, e no caso brasileiro os grandes partidos não podem tampouco acusar a ninguém, estão também envolvidos. Lula pode reverter esse quadro, penso, com uma reação saudável, a de enfrentar os problemas. Haver prescindido de José Dirceu, por exemplo, é um grande sinal. Essa situação requer que ele mantenha uma atitude muito clara.

 
Papa contra o consumismo? É pra rir?
(1 vote)
Por Admin   
17 de July de 2008
No jornal da tarde de hoje, tive a oportunidade de observar um dos pronunciamentos do Sr. Papa, representante maior da igreja católica. E mais uma vez uma mensagem recheada de críticas contra o chamado "consumismo". Não vou nem entrar na questão da ilogicidade de uma religião que ao mesmo tempo fala de combater a pobreza e prega contra consumismo (é possível deixar de ser pobre sem consumir bens que garantam o bem estar?).

 

O fato que realmente chegou a ser irônico foi que a sua "santidade" chegou à Austrália num Nababesco, colossal Iate de altíssimo luxo (que certamente deve ter custado alguns milhões de dólares), e em seguida foi "venerado" num cortejo que o reverenciou como a um deus, em um Show que deve ter custado também alguns milhões para ser organizado.

 

Então eu pergunto: que palhaçada de contradição é essa? É muito fácil pregar contra o "consumismo" quando você vive em palácios banhados a ouro e vive melhor que qualquer rei na terra. É facílimo acusar países de problemas sociais quando você gasta milhões apenas para "aparecer" em um único dia.

 

Vamos combater a fome? Claro. Comecemo a derreter todo o ouro que a Igreja Católica possui.

Ora, me desculpem o tom, mas o fato é que estou de saco cheio com uma Igreja que:


a) acusa Espíritas de charlatães, mas que no entanto vende "santinhos", velas e toda uma parafernália "milagreira"... Claro, médium não cura, mas "agua benta" sim? Palhaçada;

b) acusa evangélicos de pensar só em dinheiro, enquanto as igrejas católicas são banhadas a ouro, e os padres são obrigados a não se casar apenas para que a Igreja Católica possa meter a mão nas heranças (nunca pensou nisso? se não tem filhos, não tem herdeiros, então para onde o dinheiro vai em caso de morte?). Palhaçada;

c) acusa céticos, agnósticos e ateus de "perdidos espiritualmente", mas tem "N" padres que foram acusados de pedofilia;

d) acusa Cuba e China de ditadora, mas tentou forçar o governo Lula a assinar um protocolo diplomático para forçar o congresso a declarar o catolicismo como "religião oficial do Brasil" (sabia dessa? não? pesquise no google - isso foi recente);

e) acusa governantes Africanos de irresponsabilidade social, mas no entanto prega o "NÃO USO DE CAMISINHA". Ora, num continente e num mundo onde a AIDS faz milhões de vítimas, a doença é uma causa de miséria social;

f) prega a não interferência da religião na política (estado laico) na Turquia e no Irã, mas no Brasil a Escola Superior de Guerra (órgão que interfere em todo o planejamento estratégico do Brasil) tem um terço do seu poder nas mãos da Igreja Católica (todas as estratégias são decididas por um comite composto de um civil, um militar e um padre), além disso o cargo de Capelão (militar responsável pelo ensino religioso) é de uso exclusivo por Padres (a constituição brasileira não fala em separação do Estado e da Igreja?);


A grande verdade é que a Igreja Católica Apostólica Romana deveria OLHAR MAIS PARA SI MESMA, para seus diversos problemas e contradições internas e MENOS para as demais religiões e crenças, uma vez que, como vimos, sobra muito discurso, mas sobram mais ainda contradições (para não falar em imoralidade).
Última Atualização ( 17 de July de 2008 )
 
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